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domingo, 24 de abril de 2011

As cenas de ódio acabam sempre mal - Ana Sá Lopes no "I"

Ana Sá Lopes no "I".



O que tem de correr mal corre necessariamente pior. A tragédia do resgate veio acompanhada de um filme de terror: não há ninguém para entregar as chaves de casa ou pelo menos para negociar com o mínimo de senso o aluguer do sítio à troika do FMI. A esquerda, num erro que lhe vai sair caro em campanha eleitoral, nem sequer aceita sentar-se à mesa das negociações, como se não fizesse parte de um país que também quer ser representado nas conversas com os negociadores. É mais fácil ficar na rua, mas nem sequer é líquido que a decisão do Bloco de Esquerda e do PCP lhes renda votos na classe média, acantonando-os de vez na função de partidos de protesto que não contam para as decisões.

Depois, o ódio entre Sócrates Passos Coelho inviabilizou quaisquer mínimos olímpicos de diálogo - a somar a isto, a necessidade de sobrevivência política de Passos Coelho à frente do PSD e a fúria de Sócrates quando, depois do famoso tango, viu Passos a subir nas sondagens. Foi nos números e não noutra coisa qualquer que nasceu o ódio entre Passos Coelho e Sócrates - que, importa não esquecer, tinham sido aliados "fácticos" no tempo em que Manuela Ferreira Leite estava à frente do PSD.

O fundador do PS Mário Soares, que liderou um governo do Bloco Central antes de ser eleito Presidente da República, manda várias mensagens interessantes, na entrevista que publicamos nesta edição do i, contra a cena do ódio que domina neste momento a política portuguesa. Mário Soares encontrou-se com Pedro Passos Coelho e não viu um monstro, viu um homem normal "com quem é possível falar" e, inclusive, "bem-intencionado", com quem teve encontros recentes "para estabelecer algumas pontes necessárias", que decorreram "sem dificuldades", como conta na entrevista.

A cena do ódio que Sócrates estimulou teve o seu ponto alto esta semana com o afastamento doministro das Finanças das listas de deputados. O desmentido vindo ontem de "fonte oficial", segundo o qual tudo continua bem entre os dois homens - depois de Teixeira dos Santos ter anunciado o recurso ao FMI, precipitando uma comunicação ao país que Sócrates não queria que acontecesse naquele dia -, é evidentemente para épater les bourgeois. Como o i noticiou a 8 de Abril, Teixeira dos Santos não esperou por Sócrates para anunciar o resgate iminente. Se Sócrates sobreviver a este esfrangalhamento público é um milagre.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Continua a saga

A dúvida mantém.se aqui.

O despedimento de Teixeira dos Santos

Manuel Queiróz no "I"

"A próxima campanha será feita em circunstâncias difíceis", disse ontem Francisco Assis, ainda líder parlamentar do PS. É algo óbvio e que todos os socialistas sabem, porque o eleitorado vai, sobretudo, julgar os seis anos de José Sócrates e o pedido de ajuda externa que se viu obrigado a fazer contra tudo o que tinha dito. É a vida, como dizia Guterres.

Ontem conheceram-se as listas de candidatos a deputados e José Sócrates impôs a sua quota em Lisboa (nove nomes foram indicados directamente pelo secretário-geral), o que mostra como não quer correr muitos riscos. E é capaz de também ser por isso que o Movimento Humanismo e Democracia (que tinha as deputadas Teresa Venda e Rosário Carneiro, num acordo que vinha do tempo de Guterres) também já não teve lugar. Teresa Venda acha que "o objectivo do PS é ir buscar o eleitorado que perdeu nos últimos anos para o Bloco de Esquerda" e diz também que o fim do acordo deve estar ligado "às baixas expectativas eleitorais" do partido. "Acho que o PS está em risco de perder alguns lugares no parlamento e quer garanti-los para os seus." Também há, claro, muitos interessados - e desta vez é capaz de haver menos lugares disponíveis. Certo é que não houve lugar sequer para Luís Amado, o ministro dos Negócios Estrangeiros que nem achava mal nenhum em que o PS tivesse agora a sua cura de oposição, como disse durante o congresso de Matosinhos à TVI. 

Há alguns lugares para independentes mas, tal como no PSD, a abrangência de José Sócrates é bastante limitada, até dentro do partido. Ou com os amigos mais próximos: Teixeira dos Santos também não coube porque "as relações acabam", como disse Vieira da Silva. Às vezes acabam mal, porque o ministro das Finanças aguentou muito, mas teve mesmo de forçar o pedido de ajuda externa. Na política, a amizade é sempre um valor relativo e Teixeira dos Santos também sabe isso. Em plena negociação com o FMI é mesmo o tempo certo para despedir o (ainda) ministro das Finanças.

Em 2009, o homem nascido na Maia fez uma campanha fortíssima, empenhou-se quase como um militante (que não era) e no Porto chegaram a querê-lo como número um. Agora foi chutado para canto, em mais um sinal de que José Sócrates não perdoa - de tal modo que Vieira da Silva nem teve de disfarçar ontem como não gostava do homem da massa que muito ajudou José Sócrates.