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quarta-feira, 22 de junho de 2011

Eles andam loucos

O artigo de Ana Sá Lopes no "I", a propósito da problemáticos dos bloquistas.


E de repente o i passou a ser co-protagonista de uma cisão no Bloco de Esquerda - Rui Tavares, independente eleito nas listas do BE ao Parlamento Europeu, perdeu a "confiança pessoal e política" em Francisco Louçã. A história é, do princípio ao fim, um absurdo. Sem escamotear que o i cometeu um erro, quando por lapso não incluiu Fernando Rosas no núcleo fundador do BE, dando relevo ao facto de Daniel Oliveira ter "baptizado" o partido, como Rui Tavares tinha contado no Facebook. Este foi o único "pecado" de Rui Tavares, que se recusou nesse dia a fazer novas declarações ao jornalista do i, remetendo-o apenas para o que tinha escrito no Facebook. Contactado por uma assessora do Bloco, o jornalista do i afirmou que tinha lido no Facebook de Tavares a referência a Daniel. O ataque de Louçã, insinuando que Tavares estaria na origem de uma alegada conspiração para apagar Fernando Rosas do quarteto de fundadores do BE, é surreal. Mas, valha a verdade, não é menos absurdo que um deputado independente decida mudar de grupo político em Estrasburgo (não é exactamente o mesmo que mudar de partido) por se ter zangado com Louçã. Valium 5 para a mesa do canto, já!

domingo, 24 de abril de 2011

As cenas de ódio acabam sempre mal - Ana Sá Lopes no "I"

Ana Sá Lopes no "I".



O que tem de correr mal corre necessariamente pior. A tragédia do resgate veio acompanhada de um filme de terror: não há ninguém para entregar as chaves de casa ou pelo menos para negociar com o mínimo de senso o aluguer do sítio à troika do FMI. A esquerda, num erro que lhe vai sair caro em campanha eleitoral, nem sequer aceita sentar-se à mesa das negociações, como se não fizesse parte de um país que também quer ser representado nas conversas com os negociadores. É mais fácil ficar na rua, mas nem sequer é líquido que a decisão do Bloco de Esquerda e do PCP lhes renda votos na classe média, acantonando-os de vez na função de partidos de protesto que não contam para as decisões.

Depois, o ódio entre Sócrates Passos Coelho inviabilizou quaisquer mínimos olímpicos de diálogo - a somar a isto, a necessidade de sobrevivência política de Passos Coelho à frente do PSD e a fúria de Sócrates quando, depois do famoso tango, viu Passos a subir nas sondagens. Foi nos números e não noutra coisa qualquer que nasceu o ódio entre Passos Coelho e Sócrates - que, importa não esquecer, tinham sido aliados "fácticos" no tempo em que Manuela Ferreira Leite estava à frente do PSD.

O fundador do PS Mário Soares, que liderou um governo do Bloco Central antes de ser eleito Presidente da República, manda várias mensagens interessantes, na entrevista que publicamos nesta edição do i, contra a cena do ódio que domina neste momento a política portuguesa. Mário Soares encontrou-se com Pedro Passos Coelho e não viu um monstro, viu um homem normal "com quem é possível falar" e, inclusive, "bem-intencionado", com quem teve encontros recentes "para estabelecer algumas pontes necessárias", que decorreram "sem dificuldades", como conta na entrevista.

A cena do ódio que Sócrates estimulou teve o seu ponto alto esta semana com o afastamento doministro das Finanças das listas de deputados. O desmentido vindo ontem de "fonte oficial", segundo o qual tudo continua bem entre os dois homens - depois de Teixeira dos Santos ter anunciado o recurso ao FMI, precipitando uma comunicação ao país que Sócrates não queria que acontecesse naquele dia -, é evidentemente para épater les bourgeois. Como o i noticiou a 8 de Abril, Teixeira dos Santos não esperou por Sócrates para anunciar o resgate iminente. Se Sócrates sobreviver a este esfrangalhamento público é um milagre.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A face oculta de Sócrates

Ana Sá Lopes, no "I"



Ana Paula Vitorino foi ontem saneada do secretariado e da comissão política do PS. Outrora, a ex-secretária de Estado dos Transportes foi uma estrela em ascensão na constelação socialista, mas as coisas foram mudando devagarinho. Quem leu as escutas do processo Face Oculta percebe claramente o porquê do afastamento de Ana Paula Vitorino: provavelmente, mesmo que não tivesse testemunhado nos termos em que testemunhou no processo, a resistência de Ana Paula Vitorino no governo a variados negócios (como fica claramente sugerido da leitura das escutas) poderia ter sido suficiente para ditar a sua sentença de morte no universo socrático.

Mas Ana Paula Vitorino fez "pior" - quebrou a omertá, o silêncio fundamental à sobrevivência no submundo da política partidária e governativa. O seu depoimento no processo Face Oculta foi considerado pelo juiz Carlos Alexandre o que "merece credibilidade e se apresenta congruente com a prova dos autos", juntamente com o de Luís Pardal. O juiz desvalorizou o depoimento de Mário Lino, que negou ter sensibilizado a sua secretária de Estado para o facto de estarem em causa negócios de "amigos do PS".

Ao depor na justiça, Ana Paula Vitorino aceitou beber a cicuta. Quem se mete com Sócrates e amigos leva, leva sempre. Não é quem se mete ao estilo de Ferro Rodrigues ou de Manuel Alegre, agora recuperados para a família. É quem se mete onde verdadeiramente dói e onde dói a Sócrates não é nas divergências quanto a políticas sociais, legislação laboral ou rendimento social de inserção. O que verdadeiramente dói são assuntos aborrecidos chamados processo Face Oculta, Figo e Taguspark, licenciamento do Freeport em vésperas de eleições, tios e filhos de tios, professores virtuosos, compra de casa de luxo a preços de amigo e offshores metidas pelo meio, e por aí fora.

De vez em quando, tudo isto parece esquecido na vertigem dos dias financeiros. Mas a crise financeira e económica está longe de ser o problema mais grave deste governo (e grande parte do problema tem a ver com a crise internacional, por muito que a direita queira restringir o resgate a um problema Sócrates).

Mas o pior do caso Ana Paula Vitorino é que, tal como aconteceu durante o caso PT/TVI e Face Oculta, a omertá continuará a funcionar alegremente. Os socialistas, com excepções aqui e ali, passaram a ser impressionantemente cobardes e incapazes de afrontar o chefe. 

Enquanto não perder estrondosamente as eleições (o que está longe de ser um dado líquido em Junho), José Sócrates continuará a fazer o que bem lhe apetecer, dirigindo o PS apenas a partir da sua cabeça, por vezes dissonante da realidade. No dia em que for humilhado, é evidente que não lhe restarão quaisquer amigos. E a maior parte dos auto-amordaçados de hoje virão a terreiro afirmar que já diziam tudo isto há muito tempo. Será mentira: dizer diziam. Mas diziam muito baixinho.